A Beleza de uma Escrita Única e Suja


O cubano Pedro Juan Gutiérrez explica como a realidade de Cuba inspira sua obra, marcada por uma sinceridade cortante

Ubiratan Brasil

A degradação e uma imensa vontade de viver – caminhos tão distintos norteiam a literatura do escritor cubano Pedro Juan Gutiérrez, que está de volta ao Brasil. Hoje, a partir das 20 horas, ele participa de um debate no auditório da Pinacoteca. Em seguida, Gutiérrez vai autografar seu livro Trilogia Suja de Havana, lançado agora pela Alfaguara. Como sempre teve os excluídos deixados pela Revolução Cubana como tema de seus livros, Gutiérrez ganhou fama como autor de uma literatura forte, sensual, carregada de odores e paixões.

Escrita entre 1994 e 1997, época em que ele vivia uma crise pessoal e Cuba, uma crise econômica, a trilogia representou um desabafo sobre a situação que enfrentava. Ao contrário dos demais livros, que partiram de um plano preestabelecido, Trilogia Suja de Havana retrata o momento em que a escrita era a principal válvula de escape.

A inspiração veio sempre das áreas pobres da capital cubana, que Gutiérrez freqüentava por conta da obrigação jornalística. “Muito do que apurava não era publicado e foi-se acumulando até que tive de escrever os livros”, disse ele ao Estado, em 2001, quando foi um dos convidados da Bienal do Livro do Rio de Janeiro.

Apesar do realismo com que delineava seus personagens, os livros de Gutiérrez não eram editados em Cuba, por conta do temor de serem apresentados como antipropaganda. Mesmo assim, cópias piratas circulavam em alguns meios. “Faço uma literatura desrespeitosa e sei que não agrado a todos.”

O personagem Pedro Juan tornou-se seu alter ego – por meio dele, é possível mapear o humor e os temores de Gutiérrez ao longo dos anos. “Misturo realidade e ficção e acho interessante acompanhar a evolução do personagem Pedro Juan desde uma agressividade e violência terrível em Trilogia Suja de Havana até uma melancolia distante e pouco decepcionada nos seguintes.”

A possibilidade de se liberar, aliás, oferecida pela literatura, é um dos grandes encantos desfrutados por Gutiérrez ao escrever. Por isso que ele não se importa em maquiar a violência e o sexo, pouco se importando se isso vai chocar seu leitor. “Já fui muito amável e fiz muitas concessões durante minha fase como jornalista”, disse. “A literatura é um exercício de reflexão, um diálogo do escritor e seus personagens. Algo secreto, íntimo, privado, em que não se podem permitir intromissões.”

Serviço

Pedro Juan Gutiérrez. Auditório da Pinacoteca do Estado (150 lug.). Praça da Luz, 2, Luz, 3229-9844. Hoje, 20 h. Grátis

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