O Pescador de Flagras


Setembro/2009

Um livro e uma exposição em São Paulo reúnem as imagens escolhidas pelo francês Henri Cartier-Bresson como o melhor resumo de sua trajetória. Ao longo desta reportagem, fotógrafos brasileiros dissecam os elementos da linguagem do mestre

Por Gisele Kato

 

Acredite: Henri Cartier-Bresson (1908-2004) nunca usou a expressão “momento decisivo” para falar de sua obra. O termo, no entanto, grudou em seu nome como um slogan. Tudo culpa da tradução que o título do livro Images à la Sauvette (em português, algo como Imagens Furtivas), de 1952, recebeu nos Estados Unidos. A diretora da Fundação Henri Cartier-Bresson em Paris, Agnès Sire, conta que não foi muito fácil a negociação da editora Simon & Schuster com o próprio fotógrafo. Cartier-Bresson queria The Given Instant (O Instante Dado), mas acabou aceitando The Decisive Moment sob o argumento de ser uma expressão mais forte e mais direta.

O “momento decisivo”, porém, é certamente uma ideia menos precisa de seu trabalho. Isso porque o termo sugere a existência de um instante único, tão sublime quanto fugaz, quando todos os elementos de uma cena se combinariam para uma foto. Cartier-Bresson flanava pelas ruas sempre em busca de arranjos assim. Mas não acreditava que eles acontecessem uma vez só durante uma situação, por exemplo. Para o fotógrafo, encontros sublimes ocorriam na vida com frequência. Seu segredo era saber captá-los.

Neste mês, a abertura da exposição Henri Cartier-Bresson: Fotógrafo, no Sesc Pinheiros, em São Paulo, e o lançamento do livro homônimo, fruto de uma parceria das Edições SescSP com a editora Cosac Naify, somam-se como uma boa oportunidade para se aproximar do fotógrafo francês longe do clichê. Na publicação estão 155 imagens feitas entre 1929 e 1978 – destas, 133 compõem a mostra – escolhidas a dedo por Cartier-Bresson como o extrato de sua trajetória. Tudo na edição brasileira obedece às orientações deixadas pelo autor: da ordem em que as fotografias aparecem, divididas em seis grandes grupos, à gráfica suíça Entreprise D’Arts Graphiques Jean Genoud, a única autorizada a fazer sua impressão – que hoje é até meio obsoleta.

Lançado em 1979, o livro é a primeira antologia da obra do fotógrafo e ajuda a entender melhor o jeito como ele olhou o mundo. “Não há legendas ao lado das fotos, e os módulos da compilação misturam paisagens, retratos, cenas de rua. Perceber o que está por trás dessa distribuição pelas páginas é um exercício importante para identificar o que fez dele uma referência unânime”, diz o poeta Augusto Massi, diretor-presidente da Cosac Naify. Considerado pela maioria dos críticos como o maior fotógrafo do século 20, Cartier-Bresson não só testemunhou a revolução de Mao Tsé-tung na China e registrou um Mahatma Gandhi cansado, pouco antes de ser assassinado, como ele mesmo protagonizou episódios históricos e inusitados.

Em 1943, fugiu de um campo de concentração nazista. Foi dado como morto. Em 1946, surpreendeu a todos ao surgir em uma retrospectiva no MoMA, o Museu de Arte Moderna de Nova York, que havia sido anunciada como exposição póstuma. A mostra nos Estados Unidos, aliás, é importante não apenas por conta desse episódio. Ela atesta o prestígio que a fotografia alcançava aos poucos. Sua coroação definitiva veio por meio da lendária agência Magnum, criada por Cartier-Bresson em 1947: “Depois disso, a assinatura do fotógrafo passou a ser respeitada. Eles deixaram de ser os caras que somente acompanhavam os repórteres de texto para serem autores também de grandes reportagens visuais”, explica o curador Eder Chiodetto, responsável pela montagem da individual em São Paulo e também por uma mostra paralela, Bressonianas, com sete brasileiros influenciados pelo mestre francês .

Mas o papel de Cartier-Bresson vai além da valorização da figura do fotógrafo. Suas imagens aliam o caráter documental a um cuidado estético que começou a ganhar relevância com os surrealistas. Na década de 1920, o grupo vanguardista recorreu a artifícios de laboratório, como as colagens e os fotogramas, para declarar a autonomia da fotografia diante da realidade. “Cartier-Bresson deu um passo além. Ele literalmente saiu dos laboratórios, atravessou a rua e foi observar as pessoas, seus pequenos gestos”, diz Chiodetto. O fotógrafo provou que o cotidiano também podia ser belo, bastava que se aprendesse a admirá-lo. “Ele focou ainda em uma beleza de via humanista. Apostou na fatia de acaso que só a dimensão do humano é capaz de atingir”, completa o curador. Na verdade, Cartier-Bresson de certa forma sintetiza essas duas correntes que se digladiavam em seu tempo. Ele é, sim, um apóstolo da fotografia clássica, aquela que sintetiza a realidade. É, ainda, um fotógrafo atento aos jogos de linhas, planos e perspectivas, ou seja, tinha uma consciência voltada para a composição geométrica em seu estado puro. Ao mesmo tempo, no entanto, buscava nas ruas os cenários fantásticos, loucos, anárquicos. Os dois pensamentos, aparentemente antagônicos, combinam-se em sua obra. Isso de um jeito nada bruto, mas natural. Se os precursores do surrealismo se voltaram para experiências cuidadosamente formuladas, controladas em oficinas mesmo, Cartier-Bresson revelou a fantasia, o lado onírico, da vida real. Foi dessa capacidade de junção entre sonho e realidade que vieram cliques como o das árvores enfileiradas na beira de uma estrada em Brie, na França, que juntas, de determinado ângulo, formam um coração, ou o dos visitantes de um museu em Nápoles, em 1963, dispostos de modo a parecer que eles é que estão sendo observados pelas estátuas de mármore.

Essa habilidade para lidar com o imprevisível é um componente importante de sua genialidade. “As fotos de Cartier-Bresson exigem uma postura contemplativa. Sua essência não combina em nada com a pressa contemporânea”, diz o pesquisador Rubens Fernandes Junior. “Devemos levar em consideração que ele virou budista, meditava todo dia, e talvez essa prática tenha colaborado no treino do olhar para o inesperado. Cartier-Bresson tinha uma percepção apurada das coisas. Ele antecipava os fatos, quase previa as cenas”, afirma Fernandes. Segundo o estudioso, nunca houve espaço para a sorte nas imagens do fotógrafo francês. Seus clássicos flagras, como o senhor pulando a poça d’água, que ilustra a capa desta edição de BRAVO!, ou a cortina que de repente cobre o rosto de um homem, derivam de uma capacidade afiada para pescar as surpresas. Algo que ele exercitou. Nesse sentido, tudo correu com ainda mais naturalidade por causa da escolha de seu equipamento, uma câmera alemã Leica com lente de 50 milímetros. Silenciosa e leve – comparada às máquinas que existiam naquele tempo -, ela produz trabalhos em pequenos formatos, com perspectiva muito próxima da do campo visual.

 Foi com a Leica que o mestre conseguiu se aproximar e ao mesmo tempo praticamente anular sua presença diante dos cenários enquadrados, atribuindo graça ao mundo, tirando dele um fragmento de tempo em que o caos abre lugar para uma harmonia e uma poética camufladas no dia a dia. Em Cartier-Bresson, a vida fica suspensa.

 

ONDE E QUANDO Henri Cartier-Bresson: Fotógrafo. Exposição no Sesc Pinheiros (rua Paes Leme, 195, Pinheiros, São Paulo, SP, tel. 0++/11/3095-9400). De 17/9 a 20/12. De 3ª a 6ª, das 10h30 às 21h30; sáb., dom. e feriados, das 10h30 às 18h30. Grátis. Livro (coedição editora Cosac Naify e Edições SescSP, 344 págs., R$ 170).

 

Revista Bravo – Setembro 2009

http://bravonline.abril.com.br/conteudo/artesplasticas/pescador-flagras-495545.shtml#foto=0

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