Provocações eleitoreiras


Quinta-Feira, 11 de Março de 2010 

Eugênio Bucci

//  Em clima de comício, o presidente da República vem soltando o verbo. Mais que isso: ele vem “iscando” o verbo contra os desafetos – os que se recusam a aplaudi-lo e a obedecer-lhe. Lula repele com aspereza qualquer questionamento. Quando escuta o que não quer, fala o que bem quer, do jeito e no volume que bem entende. Não que esteja destemperado, de modo algum. Sempre, em se tratando dele, há malícia por trás da emoção. Na atual temporada, seu propósito é mostrar que manda, que nada o constrange, que nenhuma força nacional tem estatura para modular seu tom de voz.

Lula calcula. Se anda meio desbocado, não é por descontrole, mas por premeditação: para ostentar soberania total, para provar que fala e acontece, para deixar claro que controla, mas não é controlado. É assim que promete eleger Dilma Rousseff. No exercício do cargo, é o cabo eleitoral mais loquaz do Brasil – e ai de quem reclamar.

A estratégia, por sinal, já foi expressamente declarada. Há menos de uma semana, em entrevista a emissoras de rádio de Juazeiro (BA) e Petrolina (PE), quando negou peremptoriamente a informação de que pretenderia licenciar-se do cargo para se dedicar aos palanques em tempo integral, o presidente da República foi mais que direto: “Seria descabido você imaginar que um presidente da República fosse pedir licença do cargo mais importante do Brasil para fazer campanha. Segundo, que fosse possível um presidente da República se afastar, sendo que pode não ter o vice-presidente para exercer o mandato. Não teria cabimento, não teria lógica, seria uma irresponsabilidade com o mandato que foi me dado pelo povo brasileiro.”

A declaração mais confessional veio em seguida: “Achar que eu me afastando posso ajudar mais um candidato do que estando da Presidência seria diminuir o mandato. Se fosse assim, quem não tivesse mandato teria mais força política do que eu que tenho.”

Ou seja, mandato a gente usa para eleger sucessor. Mais explícito, impossível. O chefe de Estado garantiu: usará a força do mandato que lhe foi confiado para fins eleitorais. É o seu modo de mandar um recado a quem pretenda fiscalizar a sua conduta: não se vai submeter ao crivo dos que alertam contra o uso eleitoral da máquina pública. É como se esses alertas não interessassem ao povo e servissem apenas para atrasar obras e inibir autoridades.

O presidente não deixa por menos. Onde ecoam as críticas que recebe? Na imprensa? Não seja por isso: ele trata de fustigá-la sempre que pode. Nesta segunda-feira, aconteceu de novo. Durante uma inauguração da Rocinha, no Rio de Janeiro, Lula bateu: “A imprensa brasileira, por hábito ou por desvio, não gosta de falar em obras inauguradas. Ou seja, coisa boa não interessa, o que interessa é desgraça.”

Não se trata apenas de uma generalização corriqueira, mas de uma generalização totalizante e perigosa: a imprensa (ela toda) gosta de desgraça. Na véspera, a publicação de uma notícia sobre a presença de sua candidata nas festividades do lançamento de um hospital no Rio, construído sem verbas federais, irritara o Planalto. Em seu discurso inflamado, o presidente deu o troco. Reclamou daquela parte da sociedade que “não aceita que um metalúrgico seja presidente da República e que tenha feito mais do que eles”. Que parte da sociedade seria essa? Lula não responde claramente, mas suas falas não deixam dúvida: essa parte seria aquela formada pelo PSDB de Fernando Henrique Cardoso e pelos donos dos meios de comunicação, sem uma exceção sequer. A esses, a todos esses, “coisa boa não interessa”.

Com essa retórica, Lula vem pregando a antipatia contra jornais e jornalistas, retratados nos palanques como serviçais das elites, as mesmas elites que o perseguem porque ele era metalúrgico. É assim que ele pede votos em Dilma: votos contra os jornais, que só gostam de “desgraça”; votos a favor das inaugurações de obras.

A provocação mais recente veio a público há dois dias. Dessa vez, as vítimas foram os defensores dos direitos humanos em Cuba. Na terça-feira, depois de receber de dissidentes cubanos um pedido para que ajudasse na libertação de 20 presos políticos, Lula concedeu uma entrevista à agência de notícias Associated Press. Uma vez mais, defendeu Havana. Uma vez mais, usou os irmãos Castro para pirraçar os defensores dos direitos humanos na ilha e, de bandeja, para afagar os militantes da esquerda totalitária, que serão úteis na campanha presidencial. Nada é de graça. Nada é espontâneo.

“Temos de respeitar a determinação da Justiça e do governo cubano, de prender as pessoas em função da lei de Cuba, assim como quero que respeitem o Brasil”, declarou ele. “Gostaria que não houvesse (presos políticos), mas não posso questionar as razões pelas quais Cuba os deteve, como tampouco quero que Cuba questione as razões pelas quais há pessoas presas no Brasil.”

Detalhe perverso: o presidente do Brasil é puro zelo quando se trata de não opinar sobre questões internas de Cuba, mas não tem a menor cerimônia em censurar os encarcerados, indefesos, que fazem greve de fome. “Greve de fome não pode ser utilizada como um pretexto de direitos humanos para libertar pessoas.” Além de passar um pito em todos eles, comparou-os a criminosos comuns: “Imagine se todos os bandidos que estão presos em São Paulo entrassem em greve de fome e pedissem libertação.”

Por que escarnecer dos presos cubanos? Por que atacar a imprensa de forma tão agressiva? Por que alardear o uso do cargo público para fins eleitorais? Elementar: Lula age assim para brandir o cetro em praça pública. Para mostrar que tem poder. Para intimidar os descontentes. Para acirrar os ânimos. Para dividir o País e tirar vantagem da polarização. E principalmente para, no exercício do mandato, eleger Dilma. Nem que seja no berro.

Eugênio Bucci, jornalista, é professor da ECA-USP

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