A Fita Branca – Sob a Paz da Disciplina, o Vírus da Intolerância – Crítica


 

“Nunca confiei mais no futuro do que nessa época, em que acreditamos perceber o aparecimento de uma aurora”. A frase é do escritor austríaco Stefan Zweig (1881-1942), referindo-se à primeira década do século 20, momento conhecido como Belle Époque. Esse tempo de otimismo e confiança foi interrompido em 1914, quando começou a Primeira Guerra Mundial. Para o cineasta austríaco Michael Haneke, não era bem assim no período que antecedeu o conflito. Em A Fita Branca, ele mostra um ambiente bem mais soturno.

O filme é ambientado em uma aldeia alemã, em 1913. Ele é narrado em off por um dos personagens, um professor que na época dos acontecimentos tinha 31 anos, e que recorda crimes e acidentes que abalaram o vilarejo. Antes de tais acontecimentos, reinava uma espécie de paz assentada na hierarquia. Há o barão dono das terras e seus empregados submissos; um médico autoritário; uma parteira cujo filho tem problemas mentais; um pastor protestante; e um grande grupo de crianças assustadas e reprimidas diante da austera autoridade dos adultos. De repente, tudo se desestabiliza. Em longos planos, o médico se acidenta; o filho da parteira é atacado; o mesmo acontece com o filho do barão; e um dos filhos do pastor é submetido a castigos. A fotografia em preto e branco só reforça a frieza e o distanciamento pretendidos por Haneke. Um aviso: em razão de um equívoco da legendagem e do estouro da fotografia muito branca, o público que não fala alemão — a imensa maioria — terá dificuldade em entender os diálogos.

Para parte da crítica, A Fita Branca revela a gênese do que seria um espírito belicoso reinante na Alemanha da primeira metade do século 20, e que estaria na gênese de outro conflito — a Segunda Guerra. Trata-se de uma leitura pertinente, sem dúvida. Existe outra, que emerge quando se examina a obra do diretor em conjunto. Michael Haneke é obcecado pelo mal. Em seus filmes — quase todos brilhantes e absolutamente perturbadores – ele procura as sementes da violência com a frieza de um cientista em busca de um vírus. E essas sementes, em filmes como Cachê (2005) e Código Desconhecido (2000), tem a ver prinicipalmente com a questão da intolerância. Em Cachê, é o passado do protagonista que vem à tona de forma violenta, revelando sua relação conflituosa com um garoto argelino. Em Código Desconhecido, o diretor mira sua câmera para a questão da xenofobia na França contemporânea. Em A Fita Branca, a intolerância se manifesta em todos os níveis. Em um dos casos mais cruéis, o médico, um dos pilares do humanismo, revela sua perversidade no tratamento com a parteira e com seus pacientes. Sob a capa da harmonia, o filme esconde a gênese do que de pior existe no ser humano. A Fita Branca leva esse tema recorrente a um espécie de clímax. 

O FILME
A Fita Branca, de Michael Haneke. Com Leonard Proxauf, Christian Friedel e Leonie Benesch

Revista Bravo

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