O passado como cárcere


Eugênio Bucci – O Estado de S.Paulo

Sim, o passado pode aprisionar a nossa imaginação. O passado nos pode raptar, sejamos nós de esquerda ou de direita, tanto faz.

Isso posto, começo por um caso de direita: o general Leônidas Pires Gonçalves. Acabo de ver na internet, no site da Globo News, a entrevista que ele concedeu ao jornalista Geneton Moraes Neto, a pretexto dos 25 anos do fim do regime militar. A conversa, originalmente exibida no programa Globo News Dossiê, é um documento de imenso valor. Não fossem os 25 anos que nos separam da ditadura, seria também um documento de meter medo, mas não é: o que fala, na voz do militar de 88 anos, assertivo e convicto, é apenas o passado. Para o general, as inúmeras, incontáveis provas dos crimes cometidos sob o manto protetor da ditadura não contam. A verdade que ele enuncia é a verdade intocada das primeiras promessas dos golpistas de 1964, como se a história posterior não as tivesse desmentido inteira e minuciosamente.

Chefe do Estado-Maior do Primeiro Exército entre 1974 e 1977, no Rio de Janeiro, ao qual se subordinava o DOI-Codi, organismo diretamente encarregado da repressão política, Leônidas, que também foi ministro do Exército no governo Sarney, admite a muito contragosto a prática da tortura pelos militares. Para ele a tortura não passou de um fenômeno “pontual”, muito amplificado, ele concede, pelos que hoje querem receber a “bolsa-ditadura”.

Atento, Geneton pergunta sobre a morte do jornalista Vladimir Herzog, da TV Cultura, nas dependências do Exército em São Paulo, no dia 25 de outubro de 1975. O general não vacila: “Eu não tenho a menor dúvida de que Herzog é um suicida.” E minimiza o episódio, dizendo que Herzog não era um “subversivo bem preparado”. Em seguida, ele se refere ao jornalista assassinado como “o menino lá, o Herzog”. É desrespeitoso.

Em outra passagem espantosa, o ex-ministro afirma que subornou um dirigente comunista preso para obter uma informação decisiva no desmantelamento do PC do B. Teria sido assim, com dinheiro, não com tortura, que os militares descobriram o local de uma reunião da cúpula do partido, então na clandestinidade. De posse do endereço, agentes da repressão em São Paulo, no dia 16 de dezembro de 1976, surpreenderam os integrantes do Comitê Central, no bairro da Lapa, e ali mesmo já mataram três deles: Pedro Pomar, Ângelo Arroyo e João Baptista Franco Drummond. “Guerra é guerra”, repete o entrevistado. “Na guerra não há nada bonito, a não ser a vitória.”

E a vitória, na visão dele, foi dos militares. Ele garante que não houve prisões indevidas. Quem ia para a cadeia alguma coisa tinha feito. No seu entendimento, os 20 anos de ditadura salvaram o Brasil do regime comunista ? a mesmíssima crença que os apoiadores do regime professavam nos anos 60 e 70. A normalidade que temos hoje seria, ele acredita, uma conquista da ditadura.

Ver a entrevista é como visitar uma reserva ambiental do imaginário brasileiro. O entrevistado é um representante raro de um conjunto de ideias em extinção. A nossa história, ainda bem, vai superando aquelas convicções pétreas, e elas já não nos ameaçam como antes. Só o que temos ali é uma amostra intacta do passado, muito bem conservada por sinal, cuja grande utilidade é não nos deixar esquecer.

Leônidas Pires Gonçalves cumpre, desse modo, um papel ecológico. Por meio dele comprovamos que, à direita, existem os que se dedicam de alma aos dogmas pretéritos.

E o que dizer da esquerda? Bem, olhemos para o outro lado.

A esquerda também padece desse, digamos, acometimento de espírito. Se a direita busca no passado o argumento da disciplina para daí destilar sua utopia autoritária, a esquerda evoca sua utopia de fraternidade para justificar a disciplina revolucionária. Por um lado ou por outro, estamos no mesmo parque temático. Se o velho general não se desapega da mística da guerra aos subversivos, são muitos, mas muitos mesmo, os “quadros” de esquerda que se dobram a um regime de exceção, desde que ele prometa ser um atalho rumo ao paraíso socialista.

Na ilha de Cuba esse atalho já dura mais de 50 anos. Mesmo assim, boa parte da esquerda brasileira segue aplaudindo os irmãos Castro. Há presos políticos em Cuba? Silêncio para eles. Os presos morrem em greve de fome? Escárnio para eles. A blogueira de oposição Yoani Sánchez não obtém passaporte para viajar e dar palestras no exterior? Alguma coisa ela há de ter feito (como diria Leônidas).

A propósito, circulam na internet acusações “de esquerda” contra Yoani Sánchez. Dizem que ela recebe ajuda da extrema direita americana e que ela mentiu recentemente quando alegou ter sido espancada por agentes do governo. Por isso, acham justo que ela não possa viajar, pois não passa de uma “agente contrarrevolucionária”. Ocorre que, mesmo que estejam certos, isto é, mesmo que Yoani conte com apoios da direita e tenha mentido sobre um soco que lhe deram, ela continua sendo uma pessoa humana. Ora, o direito fundamental de ir e vir não cabe apenas aos que não são apoiados pela direita e que não exageram nada em seus relatos ? é um direito universal. Ao ser confinada em seu país, Yoani Sánchez é penalizada sem ter sido julgada, o que constitui uma violência. Defender esse estado de coisas é defender a revogação dos direitos humanos.

É bom lembrar: não fosse a luta dos defensores dos direitos humanos, a tortura no Brasil teria ido ainda mais longe. E em Cuba? Uma utopia que cobra seu preço em liberdade não é sequer um sonho, é apenas uma prisão, seja de esquerda ou de direita, dá no mesmo. Prender-se às certezas idas sem se abrir às dúvidas e à vida do presente não é coerência ? é apenas uma forma invertida, bruta e sombria de esquecimento.

JORNALISTA, É PROFESSOR DA ESCOLA DE COMUNICAÇÕES E ARTES-USP

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