Especiais Poesia revisitada


17/5/2010 – Por Alex Sander Alcântara

Agência FAPESP

Em ensaio publicado em 1939 pelo poeta Manuel Bandeira (1886-1968), intitulado “O Poeta”, o escritor lançava uma questão fundamental sobre a produção de Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908): se o escritor carioca tivesse morrido antes de publicar as obras da chamada fase da maturidade teria sido lembrado como um dos maiores expoentes da literatura brasileira? A interrogação de Bandeira se refere à produção da poesia de Machado de Assis, esquecida pela crítica da época e relegada a um plano secundário em relação à prosa machadiana. Passados mais de 100 anos após sua morte, pesquisadores ainda se debruçam sobre sua produção e percebem que, quanto mais se reexaminam seus textos, mas se descobre sobre o autor de Memórias Póstumas de Brás Cubas. A prova disso é a publicação de Machado de Assis – A Poesia Completa, organizada por Rutzkaya Queiroz dos Reis, professora de literatura brasileira e coordenadora da graduação da pós-graduação em literatura do Centro Universitário Padre Anchieta, em Jundiaí (SP). A edição com 752 páginas reúne 214 poemas publicados por Machado de Assis em livros e jornais da época. Além disso, a obra traz notas de esclarecimento sobre as origens dos textos e da publicação e revelam com detalhes cortes e modificações feitas nos poemas pelo próprio escritor. Além disso, o livro inclui a recepção crítica aos poemas. Pela primeira vez, também foi incorporada em livro uma paródia do fragmento do Inferno da Divina Comédia, de Dante Alighieri, recuperada por Rutzkaya a partir de uma pesquisa feita por Eugênio Vinci de Moraes, da Universidade de São Paulo (USP). De acordo com a organizadora da obra, grande parte dos poemas incluídos são conhecidos do público e já haviam sido publicados em alguns volumes anteriores, mas nunca haviam sido reunidos tal qual se encontram na coletânea. “A contribuição original para o público se dá pela confiança que se pode ter no texto apresentado nesse volume. Os poemas de Machado de Assis que foram publicados em volumes anteriores não estavam com o texto estabelecido, ou seja, apareciam com estrofes a menos ou, às vezes, com o verso invertido e outros problemas tipográficos”, disse Rutzkaya à Agência FAPESP . O livro é parte dos resultados de pesquisas que Rutzkaya desenvolve desde a iniciação científica e mestrado. Atualmente, está concluindo o doutorado em Teoria e História Literária do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) sobre a poesia de Machado de Assis, com orientação de Orna Messer Levin, professora do IEL. Na iniciação científica, Rutzkaya trabalhou no “estabelecimento e fixação” do primeiro livro de poemas Crisálidas, publicado em 1864, e no mestrado com Falenas(1870), Americanas(1875) e Poesias Completas (1901). Em ambas as pesquisas, a autora recebeu bolsa da FAPESP. A doutoranda ressalta que não analisou a poética de Machado de Assis, mas trabalhou com a “fixação” e o “estabelecimento” de textos. “Como não temos os originais, é preciso recorrer à última edição publicada e revisada pelo autor em vida”, explica ao salientar o sentido dos termos. No doutorado, a pesquisadora do IEL estuda a “configuração do nome de Machado de Assis por meio da produção poética de 1854 a 1880, e tenta responder quem era o escritor e qual era o seu lugar na literatura brasileira antes da publicação de Memórias Póstumas de Brás Cubas. No entanto, a ideia inicial desde a iniciação, segundo a pesquisadora, não era de estabelecer textos, mas analisar os poemas. “Percebi, porém, que seria impossível analisar o texto por conta da variação de uma edição para outra. Eu não sabia qual era de fato o texto do escritor, quais ele havia escrito. Era necessário organizar para depois fazer um trabalho analítico”, explica. O “Bruxo do Cosme Velho”, como era conhecido, publicou quatro livros de poesia. Nas duas primeiras partes da coletânea, a organizadora reúne os poemas publicados por Machado de Assis em Poesias Completas, que foi último livro publicado pelo escritor em 1901. Segundo a pesquisadora do IEL, Poesias Completas reunia alguns poemas dos três primeiros livros (Crisálidas, Falenas, Americanas ), além de poemas do livro inédito Ocidentais, que foi incorporado apenas no último livro. “Nesse último livro, o que Machado de Assis chama de ‘poesias completas’ na verdade é uma seleção de alguns poemas dos livros anteriores, somados ao até então inédito Ocidentais, ou seja, é a palavra final do poeta sobre sua produção. Ele faz algumas mudanças, retira muitas epígrafes dos poemas, por exemplo”, diz. Na seleção feita por Machado que consta em Poesias Completas, além dos 27 poemas de Ocidentais, o escritor selecionou alguns de cada livro. De Crisálidas, que possuía originalmente 29 poemas, sendo que 28 eram de Machado de Assis e um de Faustino Xavier de Novas (cunhado), Machado publica 12. De Falenas são selecionados 19 poemas (de um total de 29). “Mas no livro Americanas que tinha 13 poemas, somente o poema ‘Cantiga do Rosto Branco’ foi retirado pelo escritor”, acrescenta. Na edição organizada pela pesquisadora, todos os poemas que haviam ficado de fora foram incluído na coletânea. Recepção crítica Na terceira parte, Rutzkaya reúne os poemas que foram publicados de forma dispersa em jornais e revistas da época. E na última traz o que se pôde recuperar da recepção crítica, ou seja, a recepção da produção poética machadiana à época de sua publicação, tanto nos livros quanto revistas e jornais, como Marmota, onde o escritor fluminense colaborou regulamente de 1855 a 1858. Segundo a pesquisadora, aquela crítica já não sabia como lidar com a poesia machadiana, considerada inferior quando comparada à sua produção de romances e contos. Hoje algums das análises quase sempre tentam enquadrá-lo em escolas literárias e se esbarravam em lugares-comuns. “A crítica do século 20 sempre o caracterizou como um poeta romântico, principalmente nos primeiros livros Crisálidas e Falenas. Já em Americanas também é apontado como um livro com características de um ‘indianismo tardio’, um viés também da crítica do século 19, e em Ocidentais é destaco como obra parnasiana”, diz Rutzkaya. Mas, segundo ela, apesar de temas comuns à época tratados em seus poemas, Machado de Assis não se enquadrava em nenhuma escola. “A maneira como ele conduzia o enredo do poema vai frustrar um pouco as expectativas desse público que estava acostumado com literatura mais amena e de final feliz”, explica. A pesquisadora cita como exemplo o poema “Pálida Elvira”, do livro Falenas. “É um poema bastante extenso, com 97 estrofes. O poema conta uma história de amor entre Elvira e o Heitor, mas no final ela morre e o Heitor se mata”, conta. Outro ponto destacado é a presença frequentes das epígrafes. Segundo Rutzkaya, elas compõem “uma verdadeira biblioteca” e um vasto caminho de análises que pode ser recolhido a partir das epígrafes, que abordam textos que vão dos gregos aos autores contemporâneos a Machado. Além disso, inúmeras outras referências literárias estão diluídas no próprio corpo dos poemas. De acordo com a pesquisadora, o livro abre novas perspectivas de estudos sobre a produção da poesia machadiana. “A literatura de Machado de Assis na sua época foi apontada como estrangeira e muito estranha, desde quando era poeta. Era tido como poeta estrangeiro em terras brasileiras. E, segundo a crítica, ele não fazia jus ao projeto literário da época que era de uma literatura nacional, voltada para os ícones e símbolos da nacionalidade. O que se vê é que a cada vez que se volta aos seus textos sempre nos surpreendemos com o que pode nos oferecer. Apesar de ter sido muito estudada, sua produção – principalmente a poesia – ainda é uma obra em aberto”, diz.

Machado de Assis – A Poesia Completa Organizadora: Rutzkaya Queiroz dos Reis

752 páginas – R$ 100,00

Mais informações: www.edusp.com.br/

www.nankin.com.br/

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