Vittorio de Sica – Da Roma Empobrecida à Favela Carioca


Por André Nigri – Revista Bravo On Line –

Julho/2010

Mais de cinco décadas separam as duas imagens que você vê ao lado. A cena mostrada na fotografia em preto e branco foi filmada em Roma em 1948, com dois atores que nunca haviam pisado em um set antes. A colorida, feita no Rio de Janeiro em 2002, também reúne novatos que viveram seus primeiros personagens. Pelo trabalho com não-atores, o ótimo e premiadíssimo Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, é um das centenas de filmes cujos procedimentos de filmagem são inspirados no espetacular Ladrões de Bicicletas, de Vittorio De Sica, o diretor italiano que revolucionou o cinema nas primeiras décadas do século 20. Ele é tema do documentário Vittorio De Sica – Minha Vida, Meus Amores, dirigido por Mario Canale e Annarosa Morri, com estreia prevista para este mês no Brasil. Os noventa minutos do filme atestam como De Sica foi um inovador. Com o aval de diretores que fizeram a história no cinema mundial, como Ettore Scola, Clint Eastwood e Woody Allen – todos eles dão depoimentos no filme. Colocar não-atores em cena é algo que se tornou comum há anos, mas não era na época de Vittorio e seus companheiros, como Roberto Rosselini e Luchino Visconti, os outros integrantes estelares da escola conhecida como neo-realismo. No caso de Ladrões de Bicicletas, o diretor encontrou em Lamberto Maggiorani o desempregado Antonio Ricci. Premido pela crise italiana do pós-guerra, o personagem consegue um trabalho de colador de cartazes depois de muito procurar, mas para isso precisa ter uma bicicleta – dilema a partir do qual o enredo se tece. Para tornar mais reais e dramáticas as cenas de alguns personagens, De Sica usava métodos heterodoxos, como mostra um making of feito com o menino Enzo Staiola, que interpreta Bruno, o filho do protagonista em Ladrões de Bicicletas. Nas cenas, o diretor aperta com certa violência as faces do garoto para que sua expressão se torne mais dolorosa e triste. Procedimento semelhante foi repetido em Cidade de Deus quando o chefe do tráfico acua uma criança na favela – a equipe de filmagem agiu de forma brusca para arrancar lágrimas do personagem. Com agressões verbais da equipe e ameaças à sua própria segurança, o garoto, de cerca de 6 anos, ficou assustado e começou a chorar. O cinema americano também se rendeu ao modelo de De Sica, como se pode ver nos depoimentos de vários diretores no documentário. Sobretudo o cinema independente no início da década de 1960, com a câmera mais solta, a luz estourada e o tom provocadoramente realista das atuações. Alguns dos tipos perdedores do início da carreira de Woody Allen ecoam claramente os dos filmes do italiano. Sua influência se nota também em produções recentes, como Menina de Ouro, de Clint Eastwood, ganhador do Oscar de 2004 – o treinador de boxe decadente e sua infeliz pupila parecem saídos de uma produção neo-realista. A Nouvelle Vague francesa também deve muito a De Sica. André Bazin, uma das figuras de proa do movimento que revelou os diretores Jean-Luc Godard e François Truffaut, escreveu longos artigos na revista Cahiers du Cinéma exaltando o diretor italiano. Lá, ele aponta como as filmagens feitas na rua em filmes como Os Incompreendidos (1959), de François Truffaut, e Acossado (1960), de Jean-Luc Godard, usam as técnicas de De Sica. Após a década de 1940, a carreira do diretor italiano declinou. Como o escritor russo Fiodor Dostoiévski, ele era viciado em jogo. Para pagar suas dívidas, atuou em várias produções baratas e dirigiu muitos filmes ruins. Conquistador compulsivo, o cineasta também gastava com mulheres, e tinha que sustentar os três filhos de seus dois casamentos. A vida atribulada pode ter atrapalhado a criação artística, mas nada muda o fato de que o legado de Vittorio De Sica é um dos mais importantes da história do cinema.

Site: http://bravonline.abril.com.br/conteudo/cinema/vittorio-sica-roma-empobrecida-favela-carioca-582767.shtml

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